segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008


O Menino Azul

O menino quer um burrinho para passear.
Um burrinho manso, que não corra nem pule,
mas que saiba conversar.
O menino quer um burrinho que saiba dizer o nome dos rios,
das montanhas, das flores, - de tudo o que aparecer.
O menino quer um burrinho que saiba inventar histórias bonitas
com pessoas e bichos e com barquinhos no mar.
E os dois sairão pelo mundo que é como um jardim
apenas mais largo e talvez mais comprido e que não tenha fim.
(Quem souber de um burrinho desses, pode escrever
para a Ruas das Casas, Número das Portas,
ao Menino Azul que não sabe ler.)
Poema: Cecília Meireles - Imagem: Elena Silva

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008


OS OMBROS SUPORTAM O MUNDO

Carlos Drummont de Andrade
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos
edifíciosprovam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.



Meu coração é um cômodo


de fendas infinitas cujas

águas escorrem sem cessar;

de infinitas fendas sujas:

águas morrem sem cessar.

De umas falhas aberturas

armadas num espaço raso;

de umas falsas urdiduras

armadas num passo raso.

Disforme informe inacabado

de prestes alicercers imperdoáveis;

diferente indiferente estesiado

de prestes alianças imperdoáveis.

Meu coração é um incômodo.
Talvez cresço livre, um jovem inteligente,
ou conheça as drogas e morra de forma indigente.
Procuro resposta nessas regras do social
Mesmo quando um grande me force a viver calado
Por que cidadão que tenta ser cidadão,
É humilhado de forma imoral.
pedaço de poema....

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008


Lá vem Deus
de novo
cobrar deveres
não sou bom
já havia dito
antes de nascer.
Os anjos nunca dizem nada
até porque já são a mais pura verdade
que se possa imaginar
eles vão além dos pensamentos
estão sempre olhando pra gente
mas não julgam
é lógico
isso é trabalho de Deus
que está ocupado agora
na construção de um monte de mundos
que provavelmente terão problemas também.
Pra isso servem os anjos:
ficar olhando as burradas
que Deus faz por aí.
Font. Sopa Diet

SONETO
Horizonte cerrado, baixo muro,
A névoa como uma montanha andando,
O céu molhado como mar escuro.
Por muito tempo fiquei olhando
A terra transformada num monturo.
Por muito tempo ainda ficou ventando.
Cravei no espaço lívido o olhar duro
E vi a folha no ar gesticulando,
Ainda agarrada ao galho, antes do salto
No abismo, a debater-se contra o assalto
Do vento que estremece o mundo, e então
Sumir-se em meio àquele sobressalto,
Depois de muito sacudido no alto
E de muito arrastada pelo chão...
Dante Milano...